havana

by agnes s.

“O que é uma habanera? Dizem os dicionários de música (o de Harvard, por exemplo) que se trata de “canção cubana e forma de dança do século XIX, cujo nome deriva do da capital do país, Havana”; que é lenta e moderada no tempo; que se tornou popular na Europa, sobretudo através da utilização que dela fez G. Bizet (na Carmen, evidentemente) que influenciou a danza mexicana e, grandemente, o tango, nas suas origens.

É um currículo de peso, mas isto, que é muito, soa a pouco aos meus ouvidos habituados à música perfumada das imagens. Porque para mim a palavra habanera é um estampido de sons e fulgurÂncias, um rendilhado de colunas e colunatas lavradas no desmaiado pôr do sol do Caribe, o odor acre e irresístivel do charuto, a curva predominantemente feminina do Malecón, a música dançada pela voz antes que o corpo a cante, o azul do céu e a memória dos flibusteiros, uma, duas, três páginas de Alejo Carpentier. Habanera é a forma cantada de dizer Havana.

Uma tarde, passeando pelo Casco Viejo dessa cidade antiga, vi, na esquina desbotada de um prédio quase em ruínas, uma placa de latão que evocava, num nome de ressonâncias americanas, um qualquer herói da libertação cubana (a primeira, talvez a única). Essa placa exerceu sobre mim um fascínio porventura semelhante ao do aleph de Borges sobre os que o procuravam: nessa placa estava tudo o que eu sabia sobre a cidade e o que ainda esperava descobrir, a sombra do tufão e os discursos intermináveis de Fidel, a sublime expressão de Reynaldo Arenas e a tímida, frágil, poesia de Virgilio Piñera, a noite em que Lorca fez chover sobre a cidade e o exílio de Hemingway, Machin e Compay, os charutos Upmann na gaveta da secretária do meu pai e a primeira vez que li, como numa assombração, o Paradiso de José Lezama Lima.

A cidade onde existe essa placa que me revelou todos os  mundos simultâneos chama-se Havana. Esta canção é para ela.”

excerto do texto Habanera, de António Mega Ferreira

Advertisements