O desconhecido da cama ao lado

by agnes s.


“Nunca cheguei a saber o seu nome, apesar de termos dormido um ao lado do outro durante algumas semanas. Em camas separadas, claro. Aliás, em beliches separados. Um quarto pequeno, escuro e mal arejado com quatro beliches, quase sempre em lotação esgotada. Oito homens a ressonar, a cheirar mal, a deitarem-se e a levantarem-se em horas diferentes da noite e do dia. Uma promiscuidade a preço de saldo. O hostal North Shore da ilha de Maui, Havai.

Sei que era cidadão americano, apesar de ter a Ásia nos genes: talvez coreano, pelo rasgo dos olhos. Era novo, sabia cozinhar muito bem e passava os dias deitado no seu beliche a ver filmes num ecrã pequenino portátil. Nunca falava. Nunca sorria. A única manifestação de vida inteligente naquele universo de tédio e imobilidade era o momento de manusear, escolher e confecionar os ingredientes gastronómicos. E, em medida menor, o momento de ingeri-los.

Eu também cozinhava os meus alimentos, é uma regra básica de poupança para quem anda a viajar. E das várias vezes que coincidimos na cozinha tentei meter conversa. Aquelas coisas: “precisas da faca?” Ou “se quiseres posso mudar o meu tacho para aquele disco que não preciso de tanto calor”; ou “essa especiaria cheira muito bem, o que é?”. Ele limitava-se a grunhir, a acenar com a cabeça, a apontar com o dedo, enfim, não era mudo, falava regularmente com a gerência pelas questões habituais do alojamento. Apenas não queria conversa. Pensava, para o desculpar: “No fundo não é antipático; terá a ver com os genes, os asiáticos são por natureza reservados e circunspectos, etc…”

Havia uma regra no hostal: o tempo máximo de permanência eram três semanas. Não me recordo bem se ao fim desse período se tinha de sair por duas noites ou cinco, ou algo assim. A ideia era impedir que certos mutantes do Sonho Americano transformassem o hostal em residência própria. Percebia-se bem quem eram: desempregados, pensionistas ou reformados que, de alguma maneira, conseguiam garantir aquele financiamento mínimo mensal para residir numa das ilhas mais bonitas do mundo, para beber o seu uísque diariamente até à sonolência comatosa, para usufruírem da primavera eterna quando o resto da nação estava a tremer sob aqueles invernos brutais que paralisam a economia ou a transpirar desesperadamente com aqueles verões que elevam a taxa de homicídios nas periferias urbanas.

Contando comigo, já tínhamos três formas diferentes de usufruir a pensão mais barata de Maui. O Gary, com as barbas amarelas do tabaco, barriga de cerveja ideal para ver televisão no sofá da sala comum, um sobrevivente dos anos sessenta e de outras coisas que apanhava a promoção mais barata de passagens aéreas para Honolulu e depois arrastava-se durante os meses de inverno pelos hostals do arquipélago. Eu, mochila às costas e bilhete de avião volta-ao-mundo, tentando viajar pelo Havai de uma forma sensata e económica, poupando no que era possível poupar, como na comida e na dormida. E o desconhecido da cama ao lado que, entre um filme e uma sesta, fazia um ou outro telefonema e tomava notas do que lhe diziam. Creio que esperava um emprego, uma vaga, uma resposta. Certamente num restaurante ou num cruzeiro. Era fácil adivinhar o posto de trabalho que procurava: chef de cozinha.

Maui é linda, uma declaração que está acima de gostos subjetivos. Dizem que é a ilha mais bonita do Havai, outra declaração que já não é tão consensual. Um vulcão domina o espaço do olhar, o Haleakala, e assistir ao nascer do Sol desde o cume é uma daquelas coisas que se tem de fazer em Maui; percorrer a panorâmica que conduz a Hana é outra delas. E ver surfar na baía de Honolua, onde quebra uma das ondas mais bonitas do mundo, é mais uma. Há várias coisas bonitas para preencher aquela semana que geralmente se passa em Maui – o tempo médio que a classe média norte-americana gasta por ano em férias.

Mas os principais visitantes de Maui não são quaisquer casais da classe média; são casais recém-casados, em lua-de-mel. A economia local assenta no turismo, e o turismo assenta nas luas-de-mel. Portanto, tudo o que saia fora deste esquema está a mais, não é bem visto nem sequer é necessário. Mochileiros na poupança, barbudos sem poiso e jovens “chefs” desempregados saem fora do esquema, não são necessários para a economia da ilha. Alojamento para eles, também não.

O North Shore Hostal era de facto uma anomalia na economia e na lógica de Maui, e pensando bem, se calhar não era por acaso que se situava num bairro dormitório de uma localidade tristonha cuja única animação humana era o momento das compras no supermercado ao fim do dia. Também a animação no hotel acontecia apenas ao fim do dia, quando os hóspedes mochileiros regressavam das praias e dos vulcões, o Gary regressava ao sofá para o telejornal e cerveja quotidianos, e o aroma de comidas exóticas e prometedoras invadia os corredores e dormitórios do North Shore. Era, claro, o chef asiático da cama ao lado, a fazer magia com os ingredientes. Nunca falava, nunca sorria e nunca ofereceu a provar a sua comida a ninguém.

Quem sabe se alguma vez chegarei a saber onde arranjou emprego e se terei oportunidade de me sentar à mesa desse afortunado restaurante. Quando esse dia chegar, só espero que no serviço de sala esteja um napolitano ou um sevilhano ou um brasileiro. Enfim, alguém que geneticamente fale pelos cotovelos, para equilibrar o silêncio mágico e prometedor que virá da área da cozinha.”

Gonçalo Cadilhe, Geografia das Amizades em Visão

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