afternoon sudden stories

Month: December, 2015

[untitled]

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Foi a primeira vez.

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Foi a primeira vez que a vi chorar.

Depois de várias voltas no parque de estacionamento, voltas para desatar o nó que se encontra entalado e alojado cá dentro, voltas alheadas do que se passava no exterior, unicamente a ganhar coragem para dar o passo para dentro do edifício. Mais do mesmo, pensei. Entrar e ver uma maioria de caras desconhecidas, rostos vagos com algo em comum: o cansaço terrivel e um medo latente de nao saber, nao querer ou nao mostrar. Mesmo nos mais bravos, o brilho no olhar que já nao existe..ficou em algum lado, está adormecido, algures.

Invariavelmente faço o percurso quase de cor, nao gosto de estar ali, nao quero ver mais do que tenho de ver. Pergunto como ela está, a uma das enfermeiras e pela primeira vez alguém me responde sem aquele palavreado tecnico e quase decorado.

– Está cansada. Entra um bocadinho, mas não posso prometer nada.

Outra vez aquele nó cá dentro e aquela vontade irracional de virar costas e fugir o mais rápido possível. Mas fico.

Ainda demoro a entrar. Já aqui estou mas chuto cada passo.

Encontro-a dormir, sossegada e imediatamente sei que nao me vou aguentar ou pelo menos, nao como tinha imaginado. Sentei me ao lado e um mundo inteiro de recordações bloqueia a visao do quarto, da cama. Fica tudo desfocado e tento voltar à realidade.

– Ainda bem que ficaste. – ouço-a dizer, baixinho.

A voz acusa o cansaço e a fragilidade geral, como é que eu ainda me queixo..

“Claro que fiquei. Fico sempre.” Olho finalmente para ela e foi aí  a primeira vez que a vi chorar.

O que falámos depois, o que ela me disse depois, fica entre nós- para ja ainda está amarfanhado num turbilhao de emoções.  Vou me lembrar, isso te garanto.

Mas fica mais um bocadinho.